Bagunçando o prazer

Categories: Mesa de bar

À primeira visão, uma prateleira pululando de cervejas diferentes e desconhecidas pode gerar medo, reticência e saudade da insossa e padronizada cerveja ambeviana. Calma lá, para tudo existe um início, ainda mais quando falamos de séculos de tradição cervejeira. Pessoas esclarecidas (ou cervejeiros metódicos) curtem uma degustação com muita calma e parcimônia, às vezes vários anos do mesmo rótulo. Como somos, na infinita maioria, reles apreciadores desse lindo mundo lupulado e o universo cervejeiro apresenta diariamente novidades, aproveitei a deixa para bagunçar tudo e criar o roteiro de um dia feliz (e ébrio), com uma escalada clássica do mais leve para o mais forte. Mas atenção: pançudos e simpáticos cervejeiros são unanimes ao alertar que muitas cervejas ao mesmo tempo podem gerar confusão, logo, esteja preparado para a bagunça.

Funciona assim: você deve começar aos poucos, de leve, com uma Pilsener, como a Jever, ou uma Weizen, ou Weissbier da serrana St.Gallen, defendendo a produção do estado fluminense sem falsos ufanismos. Você pode também, etílico amigo, começar um passo à frente: que tal uma Lager lupulada como a Jan Kubis, da DUM, ou uma Witbier revolucionária como a Jeffrey, aquela que te deixa com cara de pato? Pronto, foi dada a largada, e se você quer dicas, sugiro uma boa música, um copo d’água, um pote de amendoim (eventualmente um chocolate será necessário) e claro, uma boa companhia, porque gostamos de prosa e de dividir a conta.

Troque o copo e se aventure no universo das IPAs, com Funk (Funk Ipa, 2Cabeças), Hardcore e Punk (ambas da BrewDog). Cervejas possuem histórias, tradições e regras que, graças, são constantemente quebradas. Diz a tradição cervejeira que nosso paladar só percebe até 120 IBUS, a famosa unidade de amargor. Peça uma Invicta 1000 IBU e tire suas conclusões. Pronto, dessa forma você adicionou mais um adjetivo para sua aventura, Imperial, como a Noi Amara, a Imperial IPA de Niterói.

India Pale Ale

Um desvio no pragmatismo sugerido acima seria o belo mundos das belgas e das trapistas monásticas. Abençoados sejam os santos monges cervejeiros, pois esse lance de água benta com cerveja é uma bela combinação. Variações religiosas à parte, uma La Trappe, se possível Quadrupel, e se possível no copo original, melhora 100% o dia de qualquer ser humano (ou celeste). Falando de belgas, temos a Duvel normal, mas vale a safra anual (Duvel Tripel Hop). Uma Gulden Draak, a da garrafinha preta então (9000 Quadrupel), também se ajusta. Pode confessar que o papo ficou mais animado, aquele sorriso bonito e soltoMas não esqueça, água e o trocado do táxi são sagrados.

Chegamos nas cabeças, hora de uma Porter, uma Stout ou uma Barely Wine (e também daquele chocolatinho). Dum Petroleum de tão bela deixa borra no copo, vale tentar ler o futuro. A recém chegada Monjolo desce no copo parecendo leite preto, daqueles que a gente bebe para fazer amizades. Para aumentar o caos mental e sensorial, uma boa pedida é a norte-americana Russian Imperial Sout Old Rasputin, possivelmente capaz de reeditar a Guerra Fria. Sempre trocando de copo, sempre bebendo água, “é hora de dar tchau Lilica“. Sugiro, por último, o total descrédito em relação às informações acima e a autogestão do processo degustativo, mas deixo um alerta: não adianta se entupir de malte torrado com uma Porter e logo em seguida buscar as notas suaves de uma Weizen. Taí a prova de que existe algum racionalismo no mundo.

Gustavo Durán
Author: Gustavo Durán

Gustavo é professor de História, pesquisador e curioso. Bom de papo, gosta de fazer novas amizades em bares, sempre acompanhado de boas cervejas.

One Response to "Bagunçando o prazer"

  1. Antonio Posted on 28 de janeiro de 2015 at 7:32

    O certo é “Diga tchau, Lilica”… “hora de dar tchau” é teletubbies

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