Cerveja quente?

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Uma das “verdades” que mais ouvi na minha adolescência era que se bebia cerveja quente e choca na Europa. Nunca fui capaz de entender plenamente esta afirmação. Veja você, meu referencial de cerveja até essa época (uns vinte anos atrás) eram as marcas de todo dia, das grandes cervejarias nacionais (nem a Ambev existia ainda). Então, em minha mente criativa, imaginava alemães, ingleses, tchecos e povos afins se esbaldando com uma caneca gigante de Brahma quente e sem gás. Um verdadeiro laxante. Claro que, com mais alguns momentos, percebi que a temperatura ambiente europeia dificilmente é igual a do Brasil, que beira os inacreditáveis 50 graus, no verão. Mesmo assim, a calefação de pubs e bares deveriam deixar a experiência com cara de tortura.

Em um corte abrupto de tempo, trago você para os dias atuais. Anos se passaram desde que as cervejas especiais começaram a aportar no Brasil e, junto com elas, muita literatura específica e conversas de bar regadas à cerveja e sobre cerveja. Os diferentes estilos, os diferentes copos, as diferentes temperaturas de degustação! Algumas mais, outras menos, nenhuma estupidamente gelada. Mas e a tal da cerveja quente europeia?

Em Londres, pude finalmente tirar a prova dos 9. E, pesquisando, muitas vezes empiricamente, descobri uma informação que deu toda uma nova cor à afirmação de que se bebe cerveja quente e choca na Europa. Por aqui, as cervejarias costumam vender cerveja em dois tipos de barris. Um, o que estamos acostumados, é chamado de Keg. É aquele barril de onde a cerveja sai com espuma, na pressão, geladinha. O nosso Chopp. Pasteurizado e com gás adicionado. Se você pedir uma pilsner ou uma lager em um pub, fatalmente irá tomar uma cerveja desse tipo.

Mas é agora que a história fica interessante. O outro tipo de barril, totalmente desconhecido por mim até aportar por aqui, é o Cask. Ele vem diretamente das cervejarias para os pubs e carregam cervejas super frescas, sem nenhum tipo de pasteurização, nem gás adicionado. Ou seja, a cerveja (uma ale) continua a fermentar no barril. É uma cerveja viva para consumo rápido e que, por isso mesmo, não é exportada. Diferente do Keg, um Cask deve ser condicionado em um reservatório, deitado, para que a levedura se deposite no fundo do barril, deixando a cerveja mais translúcida. E sua temperatura deve ser uma pouco mais alta na hora de servir.

Opa, temperatura mais alta! Está aí a resposta que procurava. Algumas cervejas servidas em pubs da Inglaterra, as chamadas Cask Ales, são muito frescas e servidas entre 11 e 13 graus centígrados. Como não levam adição de gás e a espuma é feita apenas pela segunda fermentação no barril, temos a sensação de que a cerveja é choca. Cerveja quente e choca!

Moral da História: ainda não sei no resto da Europa, mas aqui na Inglaterra bebem-se cervejas quentes, “chocas” e que, no fim das contas, são uma delícia. Basta se acostumar a elas.

Cheers,

Luis Fernando Taylor
Author: Luis Fernando Taylor

Luis Fernando Taylor é publicitário, jornalista, roteirista, redator e ainda encontra tempo para beber cervejas. Formado pela escola da vida, carrega os calos nos cotovelos com o orgulho de quem já passou muito tempo da vida filosofando, ou só jogando conversa fora, no botequim.

One Response to "Cerveja quente?"

  1. caio Posted on 6 de março de 2015 at 0:35

    Eu também não sabia dessa diferença. Não fazia a menor idéia.

    Se a cerveja “pede” isso, ok, suba a temperatura. Aí entra no que você disse ao fim do texto: acostumar-se.

    Não sei se sou capaz de me acostumar a isso.

    Um dia eu gostaria muito que alguém discutisse o seguinte tema ligado às cervejas (e ao álcool em geral): bebe-se pra quê, afinal?

    Porque hoje você ouve de tudo: sabor, textura, cor, temperatura etc.

    Mas, enfim… Não bebemos para ficarmos altos?

    Abraços.

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