Liberdade líquida

Categories: Mesa de bar

Gaivotas ao longeUma tarde cinzenta, o sol parecia estar com preguiça de lutar contra as nuvens, o clima era agradável e, sentado naquela varanda, era possível ver as gaivotas sobrevoando os pequenos barcos abandonados, na esperança de que algum pescador aparecesse por ali. Era inútil, os barcos estavam abandonados há anos, os pescadores haviam desistido daquela costa por algum negócio mais lucrativo fora daquela cidade…

É assim que a vida funciona, quando as coisas ficam difíceis, as pessoas procuram uma saída mais fácil, pelo menos para aqueles pescadores, mas você havia decidido ficar, talvez pelo apego às memórias, talvez por não precisar ganhar a vida através de um recurso cada vez mais escasso, tanto faz, tanto tempo já passou desde que todos foram embora que o motivo de você ter ficado pouco importa.

A man’s got to do what a man’s got to do“, todo dia essa frase, de algum filme já esquecido, aparecia na mente, lembrando que você não estava ali por vontade própria. O compromisso havia sido feito e não havia volta. O trajeto até a geladeira da casa era feito de modo automático, sempre os mesmos passos, o piso naquele caminho mostrava sinais de muito uso, bem mais do que no restante da casa, que acumulava poeira por cima dos panos largados em estantes e cadeiras, a casa parecia desabitada, se não fosse pelo constante acúmulo de garrafas no lixo, que era dispensado semanalmente.

Os dias eram tediosos, mas o trabalho era necessário, todos os dias a luz do farol precisava ser acesa, sempre na mesma hora, sempre pelo mesmo período de tempo, sempre girando na mesma velocidade. Uma coisa engraçada sobre a rotina é que ela te doutrina e aos poucos você não se lembra mais como as coisas funcionavam antes.

No fundo você sabia que seu trabalho era importante, ou pelo menos assim te fizeram acreditar, alguém iria retornar àquele pier, e precisaria do farol aceso, para não ir de encontro ao recife e ter o barco destruído. Mas quem estava vindo? Por que? Com tantos outros portos, com tantos outros meios de transporte, por que diabos alguém iria navegar até aquele fim de mundo? No início você se questionou isso, mas depois, seu senso de responsabilidade falou mais alto. Você não falhava, sempre está lá para ligar o farol e no restante do tempo ocupava seu tempo como era possível.

A cidade mais próxima era relativamente movimentada, e com uma velha caminhonete você fazia o trajeto de ida e volta, sempre observando a mesma paisagem, na mesma velocidade. A rotina havia lhe tornado metódico e algo dentro de você, que antes gritava por liberdade, aos poucos foi sendo sufocado. E quem poderia pensar que sua liberdade estaria presa dentro de uma garrafa?

Certamente você não esperava por isso, não quando algo te fez passar por aquela prateleira no mercado e pegar uma cerveja diferente da que você estava acostumado, você nem percebeu. Possivelmente seu inconsciente ainda estava gritando por liberdade, mas você havia parado de ouvir, e ele resolveu agir, tentando mudar alguma coisa para causar um possível caos, algo que te fizesse acordar daquele coma. Nossa mente tem vontade própria embora não saibamos disso, e tentemos ao máximo negar… Sabe quando você tem a sensação de ter acordado de um transe? Ou quando você acha que tirou apenas um cochilo, mas quase 8 horas se passaram desde que você deitou? É sua mente agindo de forma independente, sem seu controle. Você não tem controle, e, por mais que tente, nunca terá.

Como não teve ao colocar aquela cerveja na geladeira, e nem ao abri-la mais tarde, quando observava o pôr-do-sol. Era uma tarde tranquila, e você aproveitava os últimos minutos de ar livre antes de se trancar no farol para mantê-lo em funcionamento. Seus olhos não perceberam o rótulo diferente, e nem a coloração escura que a cerveja apresentava ao cair no copo, você estava operando no modo automático, com pequenas intereferências imperceptíveis do seu inconsciente. A surpresa só veio ao prová-la, mas já era tarde demais, aquele “choque” ao sentir o sabor torrado do malte fez com que você respirasse fundo no susto, e o aroma, também torrado, invadiu suas narinas fazendo com que você piscasse forte os olhos e se perguntasse o que diabos estava acontecendo. A mistura de sabores, doce, torrado e amargo faziam uma dança no seu paladar e a cerveja desceu suave por sua garganta, seu corpo não estava esperando aquilo e seu inconsciente ordenou que sua boca se contraísse de certa forma em uma espécie de sorriso. Ele havia vencido.

O tempo parecia estático, você olha para o copo que está segurando, observa aquela espuma bege, densa e persistente, manchando um pouco a lateral do copo, o aroma volta a acertar suas narinas como um soco e você fecha os olhos, tentando aproveitar o máximo aquele momento, oxigênio, gás carbônico e o perfume inebriante daquela cerveja chegaram aos seus pulmões e você já está completamente dominado, leva o copo à boca para um segundo gole e olha para o horizonte. O mundo parece mais acolhedor agora. O sorriso ainda está estampado em sua face, você caminha até o farol, liga o mecanismo e volta para o píer. Observa o sol sumir no horizonte e liga a velha caminhonete.

De repente você percebe que a vida é pequena demais para fazer sempre a mesma coisa, a voz que antes gritava por liberdade agora ecoa livre em sua mente, e você nem se questiona sobre a responsabilidade de manter as coisas em ordem por ali, no caso do tal barco chegar. Isso não é mais problema seu, que outra pessoa cuide disso. É hora de buscar uma aventura, e você deixa a garrafa de cerveja em cima da mesa, na varanda da casa que te abrigou por tanto tempo. Talvez sirva de alerta para o próximo que se aproximar, ou talvez vá para o lixo com todas as outras, pouco importa, ela já cumpriu a missão dela e você precisava encontrar a sua.

Vinicius Costa
Author: Vinicius Costa

Carioca, já foi desenvolvedor de sistemas, fotógrafo e bonsaísta. Resolveu colocar sua paixão por cervejas à prova. De Pilsner à Russian Imperial Stout, passando por Barley Wines, Sours e Rauchbiers, sendo cerveja, tá valendo. Continua regando seus bonsai, mas hoje cuida mais do Cerveja Social Clube. Cerveja preferida? A próxima!

2 Responses to "Liberdade líquida"

  1. Cristiano Barbosa Lima da Silva Posted on 2 de abril de 2014 at 8:25

    O extremo cuidado com cada detalhe é visível para os frequentadores do Clube. Sim, como o nome diz, é um clube e não um bar, nem um pub. Uma proposta adaptada ao clima carioca com cervejas artesanais de sabor apurado. Por isso, sempre vou lá no clube, no Cerveja Social Clube. Onde bebo bem, sou muito bem atendido e sempre volto para casa satisfeito e sabendo mais sobre uma das coisas que mais gosto: a cerveja!

  2. Rodrigo Posted on 19 de agosto de 2016 at 19:16

    Cara, que texto esse? Parabéns pela profundidade!

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