Terra à vista

Categories: Mesa de bar

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.

Gonçalves Dias

Escolhi começar este texto com uma pequena parte do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, por um simples motivo: saudades. Ah, palavrinha tão nossa, muitas vezes sem tradução para outras línguas, mas que sabemos, como nenhum outro povo, sentir.

green_cowOk, sei que você espera ler sobre cerveja, não literatura romântica. Mas é impossível escrever sobre cervejas sem lembrar das minhas queridas cervejas do Brasil. Estou curtindo um exílio auto-imposto, aproveitando tudo o que a Europa pode oferecer em termos de cevada e lúpulo, e ainda assim não consigo parar de pensar no que deixei para trás, aí no Brasil.

DUM_PetroleumSinto falta da rapadura moleque, escondida em um gole da Indica. Do cacau, na Cacau IPA.

Do amargor sem fim da Green Cow. Do Petroleum, que é nosso! AHA UHU! Do café de verdade da Hop Arábica, do maracujá,da carambola, das frutas amazônicas. Do nosso jeito meio imaturo, ainda começando a caminhar, de fazer cerveja. Das nossas invencionices de panela, das nossas caras de surpresa quando encontram um rótulo novo. Sinto, principalmente, saudades de respirar essa cultura cervejeira, de saber onde encontrar pessoas que gostam tanto disso quanto eu. Não há sabor, tradição, cultura ou insumos frescos que façam valer a pena deixar para trás os sabores que aprendemos a amar.

Que a indústria cervejeira nacional seja mais valorizada, de cima para baixo. Que o governo apoie essa nova geradora de empregos, divisas e ressacas. Que o público entenda que muitas vezes é melhor tomar uma IPA recém saída da fábrica do que uma que atravessou o oceano, sofrendo em containers. E que eu possa, por muito tempo, ter cervejas de qualidade para beber e me orgulhar, como fiz hoje, aqui, neste texto.

Tim Tim

Luis Fernando Taylor
Author: Luis Fernando Taylor

Luis Fernando Taylor é publicitário, jornalista, roteirista, redator e ainda encontra tempo para beber cervejas. Formado pela escola da vida, carrega os calos nos cotovelos com o orgulho de quem já passou muito tempo da vida filosofando, ou só jogando conversa fora, no botequim.

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